Genival Ferreira de Miranda

Importância do Teatro no desenvolvimento Humano

Se pensarmos no teatro como uma das manifestações artísticas do ser humano mais completas, podemos dizer que ele é um excelente alimento de estímulos para as mentes ávidas das crianças. Uma vez que na composição de um espetáculo teatral temos a possibilidade de acrescentarmos a música que compõe a trilha sonora, as artes plásticas que aparecem nos figurinos, nos adereços cênicos, no cenário e em toda a plasticidade que a combinação entre esses elementos geram, temos a dança e a expressão corporal no movimento e qualidade de gestos dos atores, temos a literatura que pode ser explorada através da história que é mais do que contada, “vivida” pelos intérpretes, e ainda associando o jogo teatral às múltiplas inteligências percebemos que podemos acrescentar a lógica-matemática na organização em que as cenas são colocadas de forma a encadearem uma seqüência lógica que dará sentido à trama apresentada, temos a inteligência naturalista ou biológica no momento em que o uso de efeitos especiais são utilizados e na própria iluminação que não deixa de ser um artifício engendrado pelo homem para manipular os elementos da natureza criando diferentes sensações e ambientações, temos a inteligência interpessoal uma vez em que o teatro é uma atividade de equipe, portanto é preciso saber lidar com o outro, e no momento em que esse grupo de artistas se apresenta, ele deve saber usar sua capacidade interpessoal para lidar com essa platéia criando uma empatia e despertando um carisma necessário para transmitir sua arte e estabelecer uma comunicação, e finalmente a intrapessoal que é essencial para o ator, pois exige que este tenha um auto-conhecimento desenvolvido uma vez que seu instrumento de trabalho é ele próprio, é preciso então que ele esteja sabendo administrar seus sentimentos e emoções para inclusive poder transmitir aqueles que são adequados no momento específico de quando se está em cena, e a intrapessoal também é desenvolvida pela platéia que assiste a um espetáculo uma vez que as situações vividas na cena teatral provocam neste espectador uma série de reações, sentimentos, emoções, e uma vez que este entra em contato com seu mundo interno pode administrar também seus próprios sentimentos, identificando-os e classificando-os e assim também participando de um processo de enriquecimento pessoal.

Existem várias maneiras de participar deste processo: atuando e participando ativamente da cena teatral, ou seja, sendo participante do jogo teatral como grupo em processo – isto é, fazendo aula de teatro, construindo um espetáculo, apenas jogando livremente sem um “líder profissional”; assistindo a um espetáculo teatral, que pode ser encenado por profissionais ou amadores mais ou menos qualificados.

Neste momento proponho refletirmos sobre as aquisições feitas no ato de assistir a um espetáculo teatral, pois sobre o processo de participação do jogo teatral me parece mais óbvio detectarmos os ganhos obtidos. Mas, o que será que ocorre com uma criança ao assistir a um espetáculo de teatro?

A Criança e o Espetáculo Teatral

Escolhi falar sobre a criança como espectador porque daí podemos concluir os benefícios também conquistados pelo adulto ao longo do seu processo de desenvolvimento. Bem, tomemos a criança como referência, a neurologia, mais uma vez nos informa que o cérebro da criança, na fase dos dois aos doze anos, está no auge do seu processo de construção que poderíamos dizer que se retirássemos um dos dois hemisférios, o outro conseguiria sozinho reconstruir todas as conexões necessárias, tal a sua plasticidade e capacidade de adaptação, fato que no adulto não ocorreria, pois o cérebro adulto encontra-se com padrões mais rígidos e mais solidificados. É nesta fase infantil também que está no auge a produção de mielina, substância que irá ajudar os neurônios a realizarem as sinapses, ou seja, a comunicação entre as células se fazem de forma mais rápida e eficiente. É por este fato que podemos dizer que esta é a idade ideal para a aquisição de novos aprendizados, pois nossa mente está apta a fixar e memorizar novos conceitos, a se adaptar às novidades e a responder de forma mais espontânea aos estímulos externos.

Pois bem, se esta é uma fase áurea da psique humana, também é o momento em que devemos nos preocupar com o que estaremos oferecendo à essas mentes ávidas, pois assim como não devemos sobrecarregá-la de estímulos, também devemos nos ater a qualidade do que está sendo oferecido. Assim como não devemos super alimentar uma pessoa gulosa, e nem lhe oferecer toda sorte de produtos existentes no mercado, essa é a preocupação com a qualidade do que esse jovem espectador irá assistir, por isso o teatro como qualquer outra arte ou ciência deve ser realizado por pessoas competentes que estudaram e preparam de forma cuidadosa o que estará sendo exposto e a quem.

A criança, ao assistir a uma peça, tem os seguintes benefícios:

Convívio social – aprende a se comportar de determinada maneira para assistir ao teatro, uma vez que ela não está sozinha, deve saber respeitar a concentração dos outros espectadores, fazendo um certo silêncio, e também não interferindo de forma inadequada no espetáculo para que esse possa se desenrolar sem grandes obstáculos. Temos aí a relação interpessoal em jogo.

Ampliação do seu repertório de histórias – a cada nova peça que assiste é mais uma história que conhece, aumentando assim sua cultura geral, seu vocabulário com a compreensão de novas palavras e expressões, que dentro de um contexto ganham sentido e entendimento pleno. Neste caso sua inteligência lingüística está se estendendo.

Noções de lógica e causalidade – ao assistir de fora a uma peça, a criança compreende melhor o conjunto das informações, percebendo a idéia de início-meio-fim, as cenas se encadeiam numa seqüência quase matemática onde tal atitude causa tal impacto e assim por diante. Sua capacidade lógico-matemática entra em ação sem ela precisar se esforçar para isso.

Leitura da linguagem não verbal – muitos códigos são usados nas diferentes linguagens teatrais, temos o uso da expressão corporal, da mímica, da dança, do circo, de sombras, de manipulação de bonecos e adereços de animação, de instrumentos musicais e de percussão, uma infinidade de elementos que despertam a capacidade de leitura de signos que irão gerar novos significados, ajudando assim a construção do simbólico operando de forma tal a desenvolver a capacidade de abstração no futuro próximo, falando aqui do conceito Piagetiano da construção da inteligência. E dentro da nossa teoria das Inteligências Múltiplas teríamos nesse momento várias áreas predominando: a pictórica, a cinestésica-corporal e a musical.

A elaboração de suas próprias emoções – ao se envolver com a história vivida no “palco”, a criança irá despertar uma série de sentimentos e reações emocionais, ela irá vibrar, torcendo pelo herói, ela irá sentir raiva, medo, frustração, compaixão, ternura, tristeza e tantas outras sensações, que dependendo de como a história é conduzida fará com que ela desencadeie um processo de elaboração desses sentimentos, pode ser que ela precise desenhar sobre o que viu, que precise se movimentar fisicamente, que precise chorar, rir, contar e recontar trechos da história para os outros, ou até silenciar durante algum tempo. O que torna esse fato um tanto diferente de quando assistimos a um filme ou desenho animado? O teatro é ao vivo. As pessoas são de verdade e acessíveis. Há uma troca verdadeira ,”on line”, e se os atores forem sensíveis, o que geralmente são, eles saberão adequar o “tom” do espetáculo aquele determinado público, e isso faz uma grande diferença. Pois, o ator percebe quando pode e deve exagerar um pouco mais em determinado aspecto da cena, se deve ou não sublinhar um outro trecho, de acordo com a resposta sutil dos olhares e ruídos das crianças. Temos aqui o aprendizado rico e verdadeiro da nossa habilidade intrapessoal.


Genival Ferreira de Miranda
  • Genival Ferreira de Miranda Professor
  • Possui graduação em LETRAS e PEDAGOGIA pela Faculdade Ernesto Riscali e graduação em andamento em ARTES pelo Centro Universitário Claretiano. Atualmente é Conselheiro Tutelar, foi Diretor...

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